Aqueles que brilhavam na ponta dos pés

4 de dez de 2013


 Seria uma flor que brotou no chão e aos poucos começou a dançar. Em passos leves ela transformava-se em estrela, flutuando pelo palco num ritmo inconstante, talvez mágico, esplêndido. E sua naturalidade contagiava todos, com o brilho no olhar, cativante em passos largos e piruetas, girava, rodopiava, em um mundo que parecia não ter fim. Era como se ela eternizasse o belo e aquele momento fosse o espetáculo da vida, simples como sua fisionomia, delicado como seus pés.

Os sorrisos em contrapartida com a perfeição dos seus gestos iluminavam ainda mais a cena. E a melodia da música, ora calma, ora cativante e alegre, acelerava ainda mais aquele coração pequeno que pulava, transparecendo o amor.

Ele — por sua vez — tinha a pele branca como a neve e os cabelos negros como os seus. Juntos formavam um casal de bailarinos perfeitos. De vez em quando seus braços tocavam sua pele macia e no ar ela parecia voar. Frágeis como um pássaro, seus sentimentos transbordavam, caiam e escorriam pelo chão, inundando os olhos da plateia encantada por aquele espetáculo.

Presos pelo olhar, eles atravessavam um horizonte imaginário e percorriam caminhos, enquanto a luz que vinha lá de cima seguia seus passos. E cada vez mais seus olhos se encontravam, quando o momento parecia ser infinito e seus dois corpos formavam um conjunto impecável, construídos um para o outro de gestos e passos eternizados pela beleza do momento.


Algumas vezes quando se separavam, um grupo de meninas bem vestidas espalhava-se pelo palco e saltitava por entre os cantos do gigantesco cenário que compunha a cena. Os vestidos vermelhos e os cabelos bem presos davam um certo ar de notoriedade e rigidez no seus rostos. Mas era só olhar para seus pés que a fragilidade novamente consumia os sentimentos e a atenção desafiava os minunciosos Pas De Deux  e Demi Pointes  executados perfetamente em grande sintonia com a música.

Eu via tudo de longe, escondido por entre as cortinas do teatro. Era apenas um coadjuvante que aparecia de vez em quando como ator. Tinha nos meus olhos o brilho refletido das luzes e o coração apertado com o nervosismo típico dos ensaios. Era tudo novidade.

Num dado momento segurei suas mãos. No centro do palco dançamos alguns passos com uma bela música clássica ao fundo. Me senti em Roma, em um século diferente. Um próprio Dom Quixote, sonhador, vislumbrando sua antiga paixão. Por dentro, a ansiedade de estar com pessoas tão talentosas consumia meu frágil inconsciente. Na mente a pura e mais clara certeza de que eu também estava ali me aventurando em um desconhecido lugar assim como meu personagem também estava.

A música não parava. Todos ainda olhavam admirados nós dois. Quando paramos, entreguei suas delicadas mãos para ele e como um bom cavaleiro conduziu-a para o centro do palco novamente. Daí em diante foram as melhores partes. O céu novamente se encantou! No cantinho, por entre as cortinas, eu e meus amigos emocionados com a perfeição daquele espetáculo ouvíamos alegres os aplausos a cada pirueta finalizada pelos dois. Brilhavam como a lua e a estrelas, leves passos ao vento, macios sentimentos eternizados. 

O verdadeiro sorriso consumia o momento, era perfeito. Eterno dia que nunca esquecerei. Uma noite que brilhou mais que as outras. Talvez as estrelas do céu estivessem todas unidas ali, onde os passos eram vislumbrados. Talvez nossos olhos fossem várias constelações e cada pedaço do tempo fosse uma nova emoção. Seríamos as estrelas inatingíveis que tanto queríamos alcançar, transformadas em flores como um sonho encantado.


Brilhavam na ponta dos pés, brilhávamos para a vida.



(Inspirado no Ballet Don Quixote produzido pela escola Earte, no qual tive a honra de participar como ator em dezembro de 2012).



-Helio Filho

18 comentários:

  1. Que lindo amigo! Não tenho nem palavras pra descrever!
    Vc consegue ser melhor a cada dia. Esse texto já valeu pelo ano inteiro sem novidades suas (em relação a textos novos), com certeza um dos meus preferidos. Que experiência fantástica, emocionante!

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    1. Obrigado amiga, de coração! Fico feliz que tenha gostado :)
      Sim, foi uma experiência fantástica e nunca irei esquecer!
      Beijo!

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  2. Sabe escrever perfeitamente!!! Tem pessoas como eu que tem um boqueio mental entre a realidade e a fantasia no qual não ocnsigo escrever nada, mesmo tendo ótimas ideias. Parabéns!!!

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    1. Olá Matheus! Muito obrigado!! Fico feliz que tenha curtido o texto!
      Sabe..esse bloqueio mental acontece comigo de vez em quando, esse ano mesmo eu tive isso e só fui voltar a escrever a pouco tempo. Talvez seja uma fase, um período diferente da sua vida, não sei bem, mas é sempre bom continuar tentando, quem sabe você não consegue? Todos nós temos ótimas história pra contar, disso tenho certeza!
      Abraços!

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  3. Poético, sincero, lindo!
    Que saudade eu estava de ler um texto seu, como sempre perfeito Helio! Esse momento deve ter sido mágico e vc soube transmitir muito bem suas emoções e sua sensibilidade. Parabéns! Ah, não sabia que você andou atuando em 2012, ainda está? Adorei a novidade!
    Beijão, continua escrevendo! :)

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    1. Oi Hany! Que saudade eu estava de te ver por aqui também!
      Obrigado! Seus comentários são sempre muito lindos!
      Foi uma experiência fantástica que tive em 2012! Eu entrei em uma oficina de teatro e a partir dessa oficina foi que recebi o convite para participar do Ballet que precisava de um ator justamente com minhas características. Foi muito bom! Infelizmente esse ano tive que parar por conta dos estudos mas pretendo voltar um dia! Pode deixar!
      Beijão :)

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  4. Como sempre escrevendo maravilhosamente bem! Lindo texto! Suas palavras realmente são perfeitas, imaginei as cenas aqui, um sonho!
    Queria poder ter visto esse espetáculo também e principalmente ver vc atuando, deve ter sido um show a parte!
    Saudades de vc moço! O blog está lindo lindo!
    Bju!

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    1. Lis! Quanto tempo! Bom te ver por aqui!
      Obrigado!! Imagina, apesar de ter certa experiência atuando o show mesmo foi dos bailarinos, incrível!
      Saudades também!
      Beijos! :)

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  5. Olá caro Hélio, descreves com uma elegância de bailarino estes momentos mágicos que o palco nos proporciona, dancei junto a cada palavra que formou este post, tua forma suave de compor esta peça me encantou... já fiz teatro amador (bem amador rs) e amo isso. Dá uma vontade de sair bailando, flutuando como o casal bailarino, dá uma vontade de ler mais e mais teus textos. Gostei.
    ps. Carinho respeito e abraço

    blog do jair ou histórias de músicas e pessoas

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    1. Olá Jair! Muito obrigado! Fico feliz que tenha gostado do texto! Ah, que legal! Realmente dá uma vontade de sair dançando pelo palco, é um show muito bonito! Tive essa oportunidade por alguns minutos e foi inesquecível.
      Obrigado pela visita, volte mais vezes!
      Abraços :]

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  6. Hélio,

    quando você vai corrigir a autoria do meu poema Mude, publicado aqui?

    Abraços,

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    1. Olá Edson!
      Primeiramente queria pedir desculpas por não responder seu comentário antes, estava bastante ocupado ultimamente e acabei esquecendo. Eu realmente não sabia que o poema "Mude" era de sua autoria pois em diversos sites (inclui-se aqui outros blogs também) consta que é da Clarice. Vi o seu site agora e pude comprovar que é seu, já estou mudando a autoria certo? Obrigado por avisar e desculpa! Parabéns pelo belo poema!

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  7. Que bom que você gostou do meu poema Mude.
    Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.
    Que, aliás, não é de Clarice Lispector.

    Se puder, veja o poema todo, assim como o vídeo e o livro Mude, publicado pela Pandabooks, com prefácio de Antonio Abujamra, e à venda nas maiores livrarias.

    E o vídeo Mude pode ser visto aqui, no Comercial da Fiat:
    http://www.youtube.com/watch?v=-IwFkGLRKps
    Ou aqui:
    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=KlP9XpjVsas

    Devidamente registrado na Biblioteca Nacional do Ministério da Cultura – Registro 294507 – Livro 534 – Folha 167 – em 04/08/2003.

    A Revista Veja publicou matéria a respeito: http://veja.abril.com.br/090703/p_103.html
    Além disso, tal poema também já foi publicado por Pedro Bial na faixa 4 do CD Filtro Solar.

    Até o “mago” Paulo Coelho tem plagiado este meu poema, tanto no Twitter, quanto no Facebook, e em vários jornais e revistas, do Brasil e do exterior, como se pode ver aqui: http://mude.blogspot.com.br/2011/04/paulo-coelho.html

    Mais detalhes em http://Mude.blogspot.com

    /// Para o poeta, o importante é encantar o coração do leitor. Mesmo que este suponha ter sido encantado por Clarice Lispector ou Paulo Coelho...

    Compreenda-nos pela extensão do comentário, mas é que, além de esclarecer o fato, gostaríamos de saber onde foi que você viu que é “de Clarice”? Pois queremos passar a informação correta também a essa pessoa, para evitar que tal erro de autoria seja ainda mais disseminado.

    Flores...

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  8. que lindo, viajei um pouco com suas palavras!
    me faça uma visitinha http://maristelasaldanha.blogspot.com.br/
    grande abraço =*

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    1. Obrigado! Fico feliz que tenha gostado :)
      Farei sim! Obrigado pelo comentário!
      Abraços!

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