Do outro lado com Gabi - Parte 3

28 de set de 2010

   Tentando achar a cozinha da casa, Marília Gabriela caminhou em direção a uma porta grande de madeira. A porta era verde, haviam teias de aranha em suas bordas e marcas de sangue que diziam palavras que certamente um dia iria saber. Sem perceber deparou-se com uma varanda que dava para uma paisagem repleta de casas e árvores. No fundo, o rio Paraguaçu corria vagamente, fazendo a grande cruz de uma igreja da cidade de São Felix, no lado oposto onde estava, parecer mais esplêndida e maior. Ao lado esquerdo de uma parede, uma escada de pedra surgia terminando em um ambiente sujo. Lá estavam escravos que descansavam um pouco enquanto seus patrões conversavam, ocupados, no andar de cima. De junto da escada, uma janela de madeira mostrava uma mesa escura grande, com quatro cadeiras. Em cima dela estava um jarro de cerâmica com uma flor murcha, no canto esquerdo um copo de cerâmica velho junto de folhas espalhadas que pareciam enfeitar o lugar. Ela havia encontrado a cozinha da casa.
   Andando vagarosamente pelo local, avistou duas grandes moringas que estavam bem próximas da mesa e assustou-se quando o espírito de uma criança negra puxou a barra de sua saia.
   - Sinhazinha quer um copo D’água?- disse o espírito meio tímido.
   - Com gelo, por favor- falou Marília como se aquilo tudo fosse a coisa mais normal do mundo.

   - Gelo?  Mas o que é isso?
   - Esquece! Ô espírito burro! Não sei como essa gente conseguia viver nessa época!
   A criança agachou-se e meio bamba pegou a moringa que quase tinha o dobro do seu peso, deixando a água cair no copo, continuou:
   - Sinhazinha é nova por aqui não é?
   - Sou sim- disse Marília sentando-se na velha cadeira de Jacarandá - Mas e você quem é?
   - Sou Joaquim, seu criado! Ainda sinto as dores na minha perna esquerda. Os copos que caíram no chão machucaram ela quando mamãe correu do sinhô Jacinto naquela noite - disse o garoto.
   Marília meio sem jeito olhou para baixo e viu uma perna negra e pequena, suja de poeira, parecia cansada. Nela uma cicatriz triste estava marcada como uma tatuagem escura, nos seus olhos um ar de pena.
   - E por que ela correu dele?- falou a jornalista.
   - Por que ele queria beijá-la.
   Um vento frio passou pelas janelas, bagunçando os cabelos de Marília. Assustada, tentou correr para se proteger, mas quando menos esperou viu uma negra alta, de cabelos encaracolados surgir pela porta. Parecia aflita, estava vestida com pedaços de pano velhos e carregava copos em suas mãos. Logo depois, um homem bem vestido tentava agarrá-la à força, rasgando suas vestes, deixando os pratos que estavam na pia cair por todos os lados. Percebendo que a negra iria perder o equilibro, a jornalista tentou correr para alcançar os copos que caiam de suas mãos, mas eles, como nos filmes de ficção, atravessaram as suas, caindo no chão e se partiram em pedaços, que cortaram a perna do garoto que estava de baixo da mesa ouvindo tudo. Joaquim gemia de dor, o senhor da casa violentava a negra e Marília via toda aquela cena sem poder fazer nada.
   - Escuta aqui! Você vai se preso em nome da lei Maria da Penha! Estupro é crime, está me ouvindo? Responda!
    Marília vendo que o que falava não adiantava em nada correu para fora da cozinha à procura de ajuda. Para seu azar não encontrou ninguém. O tempo agora estava nublado, alguns pássaros se escondiam por entre as árvores. Ela, junto de um guarda-louça antigo, pensava naquele lugar, e no quanto os escravos sofriam naquela época, aos sons do grito da negra. Olhou para os lados e avistou uma passagem que dava para um quarto, porém antes de entrar nele voltou à cozinha para tentar dar um basta naquela situação, mas não havia mais ninguém nela.

( Continua com a quarta e última parte)

* por Helio Filho


Leia a última parte!

8 comentários:

  1. Muito boa essa parte tb. Adorei!
    Vc descreveu bem os detalhes e deu pra imaginar perfeitamente a cena. Parabéns ficou ótima! Pena que a continuação já é a última parte, essa história é tão legal, não queria que acabasse agora não rsrs.
    Bjoss :*

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  2. Simplesmente adorei, perfeita como todas as outras partes! Uma pena acabar na proxima vez, mas mesmo assim Parabéns! Ficou mto legal!
    Bjão

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  3. [2] na Lis! Tb adorei, ficou super bacana sua parte, isso n é nenhuma novidade ne, vc escreve super bem! Cada detalhe q vc escreveu, deu até pra imaginar o museu lendo aqui. Curiosa pra ver o final *-*
    Bjoo!

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  4. Maneiro Helio! Mto bom!
    Esperando pelo final!
    abração :)

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  5. uauu legal!! Vcs são tão detalhistas, parecem escritores profissionais! Adorei Helio, esperando anciosa pelo fina da história! Bjinhus

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  6. Adorei, assim como as outras! Mto legal, espero q o final seja bom tb! Kisses :D

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  7. Rejane

    Obrigado! Fico mto contente q tenha gostado :)
    Ah, eu tb to triste,mas a história tem q terminar ne? E vou escrever mais histórias assim, pode deixar! Espero q goste da última parte, Bjoo :D

    Lis

    Ah obrigado Lis!! Fico feliz. Espero q goste do final! Bjão

    Hany

    Obrigado obrigado obrigado!! Vc q é mto gentil! Bjoo, espero q goste do final :)

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  8. Matheus

    Obrigado Matheus!! Já postei o final, espero q goste! Abraços :)

    Joana

    Escritores profissionais?? Ah, estamos longee huahauha, mas obrigado querida! Bjoos

    Vel

    Fico feliz q tenha gostado Vel! Espero q goste do final! Bjoos

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