Do outro lado com Gabi - Parte 2

21 de set de 2010

   A jornalista percorria os caminhos do casarão. Deixava-se guiar aleatoriamente sobre as longas tábuas de madeira que lhe sustentavam os passos. Sacudia a cabeça de um lado para o outro, a fim de fisgar algo que lhe despertasse entusiasmo. Sua face impressionava-se com a dimensão das portas da casa. Eram altas, largas e quadradas.     Admirada e boquiaberta as contemplava com o estranho interesse de possuir uma idêntica àquelas em sua residência. Mas, para que?  Parou diante de uma delas. Abriu os braços. Cerrou os punhos. Também os olhos, com força. Assim permaneceu durante instantes. E então, em um exercício de sua fantasia, imaginou-se segurando, com generosíssima vontade, inúmeras sacolas de shopping, grandes e recheadas, o número suficiente para adentrar em sua casa sem ser coagida, constrangida ou sufocada pelas estreitas paredes.
   – Ah! Que sonho. Disse Marília Gabriela sorrindo consigo mesma. – Portas altas, largas e quadradas tornam uma mulher mais feliz!
   Assim ela se conservou. Logo, começou a girar devagarzinho o próprio corpo sob a porta, assim como uma criança feliz que dá rodopios sob a chuva que a molha.  Girava e girava cada segundo mais rápido. A porta larga, alta e quadrada lhe fazia feliz.
   Consumia-se em giros enlouquecidos quando de repente seus ouvidos escutaram berros agudos em um cômodo próximo de onde estava.

   – Malditos! Como ousam atrapalhar esse momento! Esbravejou a jornalista entontecida, ainda em transe.
   Chapou-se de tanto rodopiar. Terminada a ilusão sentiu-se profundamente desgostosa com a tontura. Seus olhos giravam. As mãos lhe seguravam a cabeça na tentativa de alcançar alguma estabilidade, mas de nada adiantou. Tentava passos corretos, mas não conseguia, falhava, estavam loucos, sem direção.
   Os gritos misteriosos não descansavam, persistiam. Numa fração de segundo Marília Gabriela também começou a gritar de onde estava, ainda sob a porta. Arreganhava a boca e gritava feito monstro. Do outro cômodo ouviam-se ecos de gritos que superavam os dela. Um grito aqui outro acolá. Estavam competindo.
   – Que absurdo! Que faço gritando como um animal? Perguntou a jornalista para si mesma, estranhando-se. – Comporte-se! Continuou ela, dando-se uma ordem.
   Resolveu caminhar em direção aos gritos constantes que ouvia. Arriscou alguns passos. Estavam atrapalhados. Mas, como mulher corajosa e firme nas decisões que era, continuou sem hesitar. Ora passos largos, ora curtos. Apoiava-se nas paredes para não cair.
   – Será uma vergonha se cair aqui, nesse chão desconhecido! Pensou consigo.
   Caminhou um pouco, mas seu corpo vacilante esbarrou numa arcaica e pesada máquina de escrever que estava sobre um suporte delicado e vacilante, semelhante a ela.  Todos foram para o chão. Marília caiu de braços abertos e bateu a cabeça. A máquina quebrou o chão da casa. O suporte fragmentou-se.
  
Constrangida e consciente do estrago feito na casa, procurou recompor-se de imediato.
   – Eu não vou pagar a reforma deste chão. Disse ela ao bater a mão no peito e ao sacudir o dedo indicador de um lado para o outro.
   Passado o efeito do torpor causado pelo giro, pôde se concentrar nos gritos persistentes. Marília Gabriela chegou até um quarto. Contemplou a imensa porta e sorriu. Os gritos emanavam deste local. Entrou, mas não havia nada por ali, nem pessoas e nem móveis. De imediato avistou outra porta, essa ao fundo do quarto. Correu até lá e encontrou uma linda jovem aos berros.
   – Cale-se, garota! O que se passa com você? Por que de tanto grito? Você tem nome?  Perguntou a jornalista em um único disparo.
   A jovem, aliviada, colocou-se junto de Marília Gabriela. Enxergou na velha mulher uma esperança.
   – Finalmente o socorro pelo qual tanto supliquei! Espero por esse momento há anos. Respondeu a jovem esperançosa com os dedos entrelaçados junto à face. – Chamo-me Emmanuelle, sou filha do dono desta cidade, Jacinto, dono do maior engenho de açúcar de toda região. Continuou a jovem toda presunçosa.
   – Quanta arrogância garota! Disse a jornalista.
   – Arrogância é para quem pode. Eu posso.
   – Os homens não devem suportá-la!
   – Você está enganada. É por causa de um que estou presa aqui.

   – Como? Explique-me melhor, com detalhes essa história. Pediu Marília Gabriela.
   – O quarto pelo qual a senhora passou antes de chegar até mim são de meus pais. Eu estou prometida para um homem, um banana que meu pai arranjou para mim. Mas eu gosto mesmo é de encontrar-me às escondidas com outro, é com este que desejo ficar. Explicou Emmanuelle.
   Marília Gabriela a escutava com toda atenção e olhar clínicos, quando lhe perguntou:
   – Muito bem, mas o que o quarto tem a ver com seu dilema?
   – É no quarto que estamos que fico presa todas as noites. Durante o dia me vigiam, durante a noite são as paredes que fazem a tarefa. Não há janelas, apenas quatro paredes sufocantes e meus pais logo em frente de prontidão. Respondeu a jovem cabisbaixa.
   – Você realmente vive um drama romanesco, minha jovem. Pertinentes colocações você fez. Concluiu a jornalista.
   – Ele é um homem lindo. Branco, fino, distinto, elegante, atlético e... quente! Suspirou Emmanuelle
   – Como se chama esse singular rapaz?
   – Naldo! Meu Reynaldo Gianecchini! Completou a jovem.
   O nome composto proferido pelos lábios de Emmanuelle desconstruiu Marília Gabriela assim como a implosão de um edifício. A jornalista pasmou, empalideceu. Ficou sem reação por instantes. Sua postura ética de jornalista fragmentou-se como espelho partido. Transpirava de ódio. Sua voz vacilante gaguejou algumas palavras:

   – Como? O meu Reynaldo?  Ainda tenho esperanças de reatar relações com ele.
   – Eu lamento senhora, ele é meu objeto agora. Afirmou Emmanuelle.
   – Senhora o cacete, sua jovenzinha arrogante!
   – Estou apenas sendo educada com os mais velhos. Meus pais me ensinaram dessa forma.
   – Também te ensinaram a ser vagabunda, não é mesmo? Esbravejou Marília Gabriela irritada.
   – Fique calma senhora, sua vez já passou. Ele quer carne fresca, e a sua já está moída. Procure um parceiro para jogar dominó aos domingos na praça. Respondeu a jovem calmamente ao delinear o contorno do corpo com as mãos. – Ainda vai me ajudar, não é mesmo?
   – Eu quero que você morra nesse quarto! Definhe e vire um cadáver putrefato! Só não lhe parto a cara porque...
   –... Está velha e fraquinha. Interrompeu Emmanuelle.
   – Só não lhe arrebento porque você irá se arrebentar sozinha aqui dentro! Morra menina! E afaste-se do Reynaldo! Afaste-se! 
   Marília Gabriela estava com os nervos aflorados. Deu as costas para Emmanuelle e não permitiu que falasse qualquer coisa a mais. Corria aflita. Estava com a garganta seca. 

(continua)



* Feito por Guilherme Bronzatto


Leia a parte 3! ( a que escrevi)

8 comentários:

  1. Ótima essa parte, muito engraçada. Adorei quando a garota disse "Meu Reynaldo Gianecchini" e a Marília dizendo "Eu quero que você morra neste quarto" rsrs muito bom.. imagino a fúria dela com essa garota. Quero só ver no que isso vai dar..
    Bjoss :**

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  2. ahauyahauahauhauahyha ADOREI!! Mto engraçada!

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  3. – Também te ensinaram a ser vagabunda, não é mesmo? Esbravejou Marília Gabriela irritada.

    –... Está velha e fraquinha. Interrompeu Emmanuelle.

    – Eu quero que você morra nesse quarto! Definhe e vire um cadáver putrefato! Só não lhe parto a cara porque...


    hahahahahahah morri! Essa é a melhor parte até agora, ficou mto legal! Bjoos

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  4. Adorei!! A melhor parte ate agora [2]
    Ri mto!! Ate o reinaldo tá na história hauahuah!

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  5. achei o máximo! hauaha mto engraçado!
    Tá bem comédia essa história! esperando pela continuação..
    abraços!

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  6. hauahauhauah ri demais! Essa história ta cada dia melhor!
    bjs

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  7. Rejane

    Eu sabia que vc iria gostar! hauahauha
    Realmente tá mto engraçado,é a parte mais cômica da história! Simplesmente perfeita!
    Bjoo :)

    Lis

    hauahauha fico contente Lis! Sabia que iria gostar! Bjão

    Hany

    hauahauahuahauhauahau tb adoro essas partes!!! Mto boas né? O Guilherme arrazou! Não deixe de ver a parte 3 hein?
    Bjos

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  8. Verônica

    A melhor é?? Ah vcs precisam ler a minha parte tb, estou com ciumes! hauahauha brincadeira,fico contente q tenha gostado! Bjãoo

    Matheus

    Que bom q vc curtiu Matheus! Tá comédia mesmo! Veja a parte 3, já postei lá! Grande abraço!

    Joana

    Cada dia melhor?? Nossa q legal, to adorando q vcs estão lendo e gostando! Vou contar tudo pro pessoal!
    Bjoo ^^

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