Do outro lado com Gabi - Parte 1

16 de set de 2010


   Caio está fazendo dezesseis anos. Mas não se deu o trabalho de lembrar. Desde o dia que sua família morreu naquele acidente, os dias, para ele, simplesmente passam como se um fosse a repetição do outro, como um ciclo inevitável e sem fim.
   Ele acaba de chegar em casa e sem hesitar vai direto para sala logo a direita no topo das escadas, como se não houvesse ali, outro caminho. Aquele cômodo tornou-se agora, seu lar.
   Ele olha aquelas paredes pálidas e quase se sente sendo engolido por elas. Observa então, os detalhes daquele lugar que por tantos anos o fez feliz, e que agora era o motivo de sua maior tristeza.
   Havia oito cadeiras organizadamente dispostas – quase formando um círculo -, uma mesa alta de centro com aquela cor de marrom que ele amava quando lustrada, um suporte para flores com dois lugares vazios...
   Teve então, lembranças vivas de uma tarde que passou ali: seu pai, sua mãe e sua irmã, estavam todos de volta e esta doce recordação perdurou até quando sua mãe pediu para que ele fosse até o espelho pegar o jornal.
     - Filho, pegue ali o jornal para mamãe. – Disse sorrindo com aquele olhar de amor.
     E foi. Mas ao ver-se naquele espelho manchado pelo tempo todos eles sumiram outra vez, formando pelo reflexo apenas a imagem de uma mulher estranha.
  
   Virou-se abruptamente e como se o que fosse falar já estivesse gravado, disse:
   - Quem é você? O que está fazendo aqui? – Indagou enfurecido.
   - Calma moçinho. Na verdade, nem eu sei o que faço aqui, mas sinto que devo te ajudar. – Respondeu pacificamente, causando-lhe mais fúria.
   Caio volta-se para o espelho, agora com o corpo rendido por suas mãos apoiadas na bancada empoeirada. Olhando novamente seu reflexo no espelho à sua frente, mira sua boca - a essa altura trêmula de raiva e tristeza – e vê-se dizendo:
   - Você não conseguiria. Ninguém conseguiria. Há coisas que são irreversíveis. – Rebateu com um profundo desconsolo na sua voz, agora, rouca.
   Ocorre-lhe uma lágrima.
   - Por quê? Você é tão jovem. Não deve ter sido nada grave. Agora me conte. O que está te deixando assim?
   Ele, reflexivo, ergue seu corpo e vai até a cadeira à frente daquela moça, logo ao lado do espelho. Não precisou mais que três passos para isso. Senta-se nela e quase cai quando uma nova rachadura surge. Tímido por isso demora um pouco para se recompor, respira fundo e, olhando nos seus olhos, desabafa.
   - Ontem minha família morreu. E eu não sei o que representa uma família para você, mas isso é, sim, algo grave para mim.
    

   Ela assentiu sem graça em perceber que tratou com menosprezo a situação difícil do menino. Logo em seguida acena com uma das mãos fazendo movimentos giratórios pedindo para que ele prossiga.
   - Não tenho muito o que falar. Só lembro que estávamos nós quatro naquele trem...
   Sua voz se perdeu como se alguém a tivesse cortado. Um pensamento lhe havia causado pânico.
   Seus olhos se arregalaram e ficaram perdidos naquela atmosfera espessa que se formou.
   Sua respiração ficou difícil. Tentou respirar pela boca. De nada adiantou. Parecia engolir pedras.
   Caio cai em si.
   Ele que sempre acreditou não estar naquele local do qual acabara de descrever, fica intrigado em como conseguiu ver-se ali.
   A cena ia se construindo em sua mente e na medida em que as imagens se formavam, o choro e os gritos de desespero consumiam-lhe.
   Levanta-se da cadeira e, ao mesmo tempo enquanto pensa no acidente, observa mais uma vez aquela sala. Vê, somente agora, o estado dos móveis que estão ali... Camadas grossas de poeira, teias de aranha por todos os lados, madeira deteriorada e comida por cupins.
   Por fim, e sem saber, se olha mais uma e última vez no espelho, quando a cena final se compõe:

       
   “Estava feliz. Meu pai encontrava-se logo a minha frente com minha mãe ao seu lado. Ela acariciava sua perna direita – detalhe que eu costumava observar e admirar como um ato de afeto o qual eu esperava que Amy – a garota que amo, fizesse comigo um dia.
     Minha irmã estava dormindo com a cabeça apoiada em meu ombro.
     E bastaram apenas alguns segundos para que aquele grande clarão viesse em minha direção e uma leveza me incorporasse...”

   Permaneceu em silêncio por um instante tentando assimilar o que acabara de ver. Depois não teve dúvidas...
   - Eu também estou morto! – Grita ele. – Eu também estou morto!
  A mulher vê, então, que não pode ajudá-lo, como sugeriu mais cedo o menino. E para não precisar mais ficar ali, presenciando aquela cena desagradável, sai da sala.

(Continua)


* Feito por Matt Souza


Leia a parte 2!

9 comentários:

  1. Nossa, to adorando essa história!!! Mto linda essa parte criada por seu colega! Ele escreve mto bem tb!

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  2. Adoreii! Não sei, mas parece que essa parte ficou mais séria, ficou mto legal tb!
    Bjuss

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  3. ameiii, ele escreve mto bem também! Essa mulher que aparece no espelho, no caso é a Marília não é? Gostei dessa coisa de colocar uma história diferente na mesma, como a Hany disse ficou mais séria! Posta logo a a continuação!

    Bjs

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  4. Nossa q introspectivo! Adorei tb!
    Esperando pela proxima continuação *-*
    bjinhu

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  5. Gostei Helio! Mto legal essa parte! Vcs escrevem mto bem, ficou parecendo um livro mesmo! Esperando pela continuação :D

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  6. Adoreii !!! Quero ver o resto nowww!

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  7. Lis

    Fico feliz q tenha gostado!! Ele escreve mto bem mesmo! Bjão

    Hany

    Sim, essa parte ficou bem séria,dramática. É a única parte assim por preferência do Matt,ele queria fazer algo profundo e conseguiu! Bjoo :)

    Verônica

    Que bom q vc curtiu! Sim,é a Marília! Já postei a continuação, veja lá! Bjos :)

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  8. Muito boa mesmo essa parte. Esse seu amigo escreve muito bem, dá pra imaginar direitinho a cena com os detalhes que ele descreve. Meus parabéns à ele! :D
    Bjoss.

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  9. Joana

    Sim, mto introspectivo! O Matt quis fazer algo assim e conseguiu, ficou legal né? Em breve postarei a parte 3, a dois eu já postei! Bjooss

    Matheus Lucas

    Que bom q vc gostou Matheus! Obrigado! Realmente tá parecendo um livro, mas temos q mto q aprender ainda, afinal foi nosso primeiro trabalho desse tipo, n ta perfeito!
    abraços :)

    Vel
    Obrigado querida, a equipe fica feliz q tenha gostado! A continuação vou postando aos poucos! Bjão


    Rejane

    Fico feliz q tenha gostado Rejane! Sim, ele escreve mto bem, essa parte ficou bem diferente e séria né? Realmente dá pra imaginar a cena, mto legal!
    Bjos

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