Do outro lado com Gabi - Parte 3

28 de set de 2010

   Tentando achar a cozinha da casa, Marília Gabriela caminhou em direção a uma porta grande de madeira. A porta era verde, haviam teias de aranha em suas bordas e marcas de sangue que diziam palavras que certamente um dia iria saber. Sem perceber deparou-se com uma varanda que dava para uma paisagem repleta de casas e árvores. No fundo, o rio Paraguaçu corria vagamente, fazendo a grande cruz de uma igreja da cidade de São Felix, no lado oposto onde estava, parecer mais esplêndida e maior. Ao lado esquerdo de uma parede, uma escada de pedra surgia terminando em um ambiente sujo. Lá estavam escravos que descansavam um pouco enquanto seus patrões conversavam, ocupados, no andar de cima. De junto da escada, uma janela de madeira mostrava uma mesa escura grande, com quatro cadeiras. Em cima dela estava um jarro de cerâmica com uma flor murcha, no canto esquerdo um copo de cerâmica velho junto de folhas espalhadas que pareciam enfeitar o lugar. Ela havia encontrado a cozinha da casa.
   Andando vagarosamente pelo local, avistou duas grandes moringas que estavam bem próximas da mesa e assustou-se quando o espírito de uma criança negra puxou a barra de sua saia.
   - Sinhazinha quer um copo D’água?- disse o espírito meio tímido.
   - Com gelo, por favor- falou Marília como se aquilo tudo fosse a coisa mais normal do mundo.

   - Gelo?  Mas o que é isso?
   - Esquece! Ô espírito burro! Não sei como essa gente conseguia viver nessa época!
   A criança agachou-se e meio bamba pegou a moringa que quase tinha o dobro do seu peso, deixando a água cair no copo, continuou:
   - Sinhazinha é nova por aqui não é?
   - Sou sim- disse Marília sentando-se na velha cadeira de Jacarandá - Mas e você quem é?
   - Sou Joaquim, seu criado! Ainda sinto as dores na minha perna esquerda. Os copos que caíram no chão machucaram ela quando mamãe correu do sinhô Jacinto naquela noite - disse o garoto.
   Marília meio sem jeito olhou para baixo e viu uma perna negra e pequena, suja de poeira, parecia cansada. Nela uma cicatriz triste estava marcada como uma tatuagem escura, nos seus olhos um ar de pena.
   - E por que ela correu dele?- falou a jornalista.
   - Por que ele queria beijá-la.
   Um vento frio passou pelas janelas, bagunçando os cabelos de Marília. Assustada, tentou correr para se proteger, mas quando menos esperou viu uma negra alta, de cabelos encaracolados surgir pela porta. Parecia aflita, estava vestida com pedaços de pano velhos e carregava copos em suas mãos. Logo depois, um homem bem vestido tentava agarrá-la à força, rasgando suas vestes, deixando os pratos que estavam na pia cair por todos os lados. Percebendo que a negra iria perder o equilibro, a jornalista tentou correr para alcançar os copos que caiam de suas mãos, mas eles, como nos filmes de ficção, atravessaram as suas, caindo no chão e se partiram em pedaços, que cortaram a perna do garoto que estava de baixo da mesa ouvindo tudo. Joaquim gemia de dor, o senhor da casa violentava a negra e Marília via toda aquela cena sem poder fazer nada.
   - Escuta aqui! Você vai se preso em nome da lei Maria da Penha! Estupro é crime, está me ouvindo? Responda!
    Marília vendo que o que falava não adiantava em nada correu para fora da cozinha à procura de ajuda. Para seu azar não encontrou ninguém. O tempo agora estava nublado, alguns pássaros se escondiam por entre as árvores. Ela, junto de um guarda-louça antigo, pensava naquele lugar, e no quanto os escravos sofriam naquela época, aos sons do grito da negra. Olhou para os lados e avistou uma passagem que dava para um quarto, porém antes de entrar nele voltou à cozinha para tentar dar um basta naquela situação, mas não havia mais ninguém nela.

( Continua com a quarta e última parte)

* por Helio Filho


Leia a última parte!
26 de set de 2010
Já me viste rindo
nas fotografias?
Não adianta rever.
Sou mais fotogênico
na tristeza.

Fabrício Carpinejar
“Se não consegues entender que o céu deve estar dentro de ti, é inútil buscá-lo acima das nuvens e ao lado das estrelas. Por mais que tenhas errado e erres, para ti haverá sempre esperança, enquanto te envergonhares de teus erros.”

Chales Chaplin
25 de set de 2010

"De todas as coisas que eu tive, as que mais me valeram, das que mais sinto falta, são as coisas que não se pode tocar, são as coisas que não estão ao alcance de nossas mãos, são as coisas que não fazem parte do mundo da matéria".


Lourenço ( Selton Melo) em " O Cheiro do ralo".

Do outro lado com Gabi - Parte 2

21 de set de 2010

   A jornalista percorria os caminhos do casarão. Deixava-se guiar aleatoriamente sobre as longas tábuas de madeira que lhe sustentavam os passos. Sacudia a cabeça de um lado para o outro, a fim de fisgar algo que lhe despertasse entusiasmo. Sua face impressionava-se com a dimensão das portas da casa. Eram altas, largas e quadradas.     Admirada e boquiaberta as contemplava com o estranho interesse de possuir uma idêntica àquelas em sua residência. Mas, para que?  Parou diante de uma delas. Abriu os braços. Cerrou os punhos. Também os olhos, com força. Assim permaneceu durante instantes. E então, em um exercício de sua fantasia, imaginou-se segurando, com generosíssima vontade, inúmeras sacolas de shopping, grandes e recheadas, o número suficiente para adentrar em sua casa sem ser coagida, constrangida ou sufocada pelas estreitas paredes.
   – Ah! Que sonho. Disse Marília Gabriela sorrindo consigo mesma. – Portas altas, largas e quadradas tornam uma mulher mais feliz!
   Assim ela se conservou. Logo, começou a girar devagarzinho o próprio corpo sob a porta, assim como uma criança feliz que dá rodopios sob a chuva que a molha.  Girava e girava cada segundo mais rápido. A porta larga, alta e quadrada lhe fazia feliz.
   Consumia-se em giros enlouquecidos quando de repente seus ouvidos escutaram berros agudos em um cômodo próximo de onde estava.

   – Malditos! Como ousam atrapalhar esse momento! Esbravejou a jornalista entontecida, ainda em transe.
   Chapou-se de tanto rodopiar. Terminada a ilusão sentiu-se profundamente desgostosa com a tontura. Seus olhos giravam. As mãos lhe seguravam a cabeça na tentativa de alcançar alguma estabilidade, mas de nada adiantou. Tentava passos corretos, mas não conseguia, falhava, estavam loucos, sem direção.
   Os gritos misteriosos não descansavam, persistiam. Numa fração de segundo Marília Gabriela também começou a gritar de onde estava, ainda sob a porta. Arreganhava a boca e gritava feito monstro. Do outro cômodo ouviam-se ecos de gritos que superavam os dela. Um grito aqui outro acolá. Estavam competindo.
   – Que absurdo! Que faço gritando como um animal? Perguntou a jornalista para si mesma, estranhando-se. – Comporte-se! Continuou ela, dando-se uma ordem.
   Resolveu caminhar em direção aos gritos constantes que ouvia. Arriscou alguns passos. Estavam atrapalhados. Mas, como mulher corajosa e firme nas decisões que era, continuou sem hesitar. Ora passos largos, ora curtos. Apoiava-se nas paredes para não cair.
   – Será uma vergonha se cair aqui, nesse chão desconhecido! Pensou consigo.
   Caminhou um pouco, mas seu corpo vacilante esbarrou numa arcaica e pesada máquina de escrever que estava sobre um suporte delicado e vacilante, semelhante a ela.  Todos foram para o chão. Marília caiu de braços abertos e bateu a cabeça. A máquina quebrou o chão da casa. O suporte fragmentou-se.
  
Constrangida e consciente do estrago feito na casa, procurou recompor-se de imediato.
   – Eu não vou pagar a reforma deste chão. Disse ela ao bater a mão no peito e ao sacudir o dedo indicador de um lado para o outro.
   Passado o efeito do torpor causado pelo giro, pôde se concentrar nos gritos persistentes. Marília Gabriela chegou até um quarto. Contemplou a imensa porta e sorriu. Os gritos emanavam deste local. Entrou, mas não havia nada por ali, nem pessoas e nem móveis. De imediato avistou outra porta, essa ao fundo do quarto. Correu até lá e encontrou uma linda jovem aos berros.
   – Cale-se, garota! O que se passa com você? Por que de tanto grito? Você tem nome?  Perguntou a jornalista em um único disparo.
   A jovem, aliviada, colocou-se junto de Marília Gabriela. Enxergou na velha mulher uma esperança.
   – Finalmente o socorro pelo qual tanto supliquei! Espero por esse momento há anos. Respondeu a jovem esperançosa com os dedos entrelaçados junto à face. – Chamo-me Emmanuelle, sou filha do dono desta cidade, Jacinto, dono do maior engenho de açúcar de toda região. Continuou a jovem toda presunçosa.
   – Quanta arrogância garota! Disse a jornalista.
   – Arrogância é para quem pode. Eu posso.
   – Os homens não devem suportá-la!
   – Você está enganada. É por causa de um que estou presa aqui.

   – Como? Explique-me melhor, com detalhes essa história. Pediu Marília Gabriela.
   – O quarto pelo qual a senhora passou antes de chegar até mim são de meus pais. Eu estou prometida para um homem, um banana que meu pai arranjou para mim. Mas eu gosto mesmo é de encontrar-me às escondidas com outro, é com este que desejo ficar. Explicou Emmanuelle.
   Marília Gabriela a escutava com toda atenção e olhar clínicos, quando lhe perguntou:
   – Muito bem, mas o que o quarto tem a ver com seu dilema?
   – É no quarto que estamos que fico presa todas as noites. Durante o dia me vigiam, durante a noite são as paredes que fazem a tarefa. Não há janelas, apenas quatro paredes sufocantes e meus pais logo em frente de prontidão. Respondeu a jovem cabisbaixa.
   – Você realmente vive um drama romanesco, minha jovem. Pertinentes colocações você fez. Concluiu a jornalista.
   – Ele é um homem lindo. Branco, fino, distinto, elegante, atlético e... quente! Suspirou Emmanuelle
   – Como se chama esse singular rapaz?
   – Naldo! Meu Reynaldo Gianecchini! Completou a jovem.
   O nome composto proferido pelos lábios de Emmanuelle desconstruiu Marília Gabriela assim como a implosão de um edifício. A jornalista pasmou, empalideceu. Ficou sem reação por instantes. Sua postura ética de jornalista fragmentou-se como espelho partido. Transpirava de ódio. Sua voz vacilante gaguejou algumas palavras:

   – Como? O meu Reynaldo?  Ainda tenho esperanças de reatar relações com ele.
   – Eu lamento senhora, ele é meu objeto agora. Afirmou Emmanuelle.
   – Senhora o cacete, sua jovenzinha arrogante!
   – Estou apenas sendo educada com os mais velhos. Meus pais me ensinaram dessa forma.
   – Também te ensinaram a ser vagabunda, não é mesmo? Esbravejou Marília Gabriela irritada.
   – Fique calma senhora, sua vez já passou. Ele quer carne fresca, e a sua já está moída. Procure um parceiro para jogar dominó aos domingos na praça. Respondeu a jovem calmamente ao delinear o contorno do corpo com as mãos. – Ainda vai me ajudar, não é mesmo?
   – Eu quero que você morra nesse quarto! Definhe e vire um cadáver putrefato! Só não lhe parto a cara porque...
   –... Está velha e fraquinha. Interrompeu Emmanuelle.
   – Só não lhe arrebento porque você irá se arrebentar sozinha aqui dentro! Morra menina! E afaste-se do Reynaldo! Afaste-se! 
   Marília Gabriela estava com os nervos aflorados. Deu as costas para Emmanuelle e não permitiu que falasse qualquer coisa a mais. Corria aflita. Estava com a garganta seca. 

(continua)



* Feito por Guilherme Bronzatto


Leia a parte 3! ( a que escrevi)
19 de set de 2010

"Algumas pessoas se destacam para nós (...) Não importa quando as encontramos no nosso caminho. Parece que estão na nossa vida desde sempre e que mesmo depois dela permanecerão conosco. É tão rico compartilhar a jornada com elas que nos surpreende lembrar de que houve um tempo em que ainda não sabíamos que existiam. É até possível que tenhamos sentido saudade mesmo antes de conhecê-las. O que sentimos vibra além dos papéis, das afinidades, da roupa de gente que usam. Transcende a forma. Remete à essência. Toca o que a gente não vê. O que não passa. O que é (...) Com elas, o coração da gente descansa. Nós nos sentimos em casa, descalços, vestidos de nós mesmos. O afeto flui com facilidade rara. Somos aceitos, amados, bem-vindos, quando o tempo é de sol e quando o tempo é de chuva. Na expressão das nossas virtudes e na revelação das nossas limitações. Com elas, experimentamos mais nitidamente a dádiva da troca nesse longo caminho de aprendizado do amor. "

(Ana Jácomo)

Shiny Toy Guns

18 de set de 2010
Dando uma pausa na história da Gabi, hoje venho aqui mostrar a vocês uma música muito legal de uma banda que acabei de descobrir navegando na net. SHINY TOY GUNS é uma banda de indie rock americana, radicada em Los Angeles, California que teve origem em 2002. Le Disko e You Are The One são duas de suas músicas mais famosas. A primeira por ter sido tema em uma propaganda de celulares da companhia Motorola. Já a segunda, por ter sido a canção de abertura do jogo de futebol para consoles e computador FIFA 2007, da Eletronic Arts.

Ouvindo o myspace da banda adorei a música Frozen Oceans, lindíssima. Confiram!!


Frozen Oceans

I can't sleep
I've lost the urge to sing
No one's left a friend
The cost of ill pretend
Where'd you go?
I need you now
I said ooh-ooh

Ten thousand miles apart
A frozen ocean joins our hearts
I can't wait to meet you when
The frozen waves meet ocean floors
You'll be standing on the shore
I can't wait to meet you then

I still dream
But what should I believe
Frozen shapes to bend
Impossible sets in
Lost again
Still alone
I said ooh-ooh

Ten thousand miles apart
A frozen ocean joins our hearts
I can't wait to meet you when
The frozen waves meet ocean floors
You'll be standing on the shore
I can't wait to meet you then

I can't wait (x7)

The frozen waves meet ocean floors
You'll be standing on the shore
I can't wait to meet you then
Ten thousand miles apart
A frozen ocean joins our hearts
I can't wait to meet you when

Oceanos Congelados

Não consigo dormir
Perdi a vontade de cantar
Ninguém é deixado por um amigo
O preço de fingir doença
Aonde você foi?
Preciso de você agora
Eu disse ooh-ooh

Dez mil milhas de distância
Um oceano congelado une nossos corações
Não posso esperar para conhecê-lo quando
As ondas congeladas encontram os pavimentos do oceano
Você estará de pé no litoral
Não posso esperar pra vê-lo, então

Ainda sonho
Mas o que eu deveria acreditar
Formas congeladas a dobrar
Impossível em conjuntos
Perdido novamente
Ainda sozinho
Eu digo ooh-ooh

Dez mil milhas de distância
Um oceano congelado une nossos corações
Não posso esperar para vê-lo quando
As ondas congeladas encontram os pavimentos do oceano
Você estará no litoral
Não posso esperar pra vê-lo, então

Não posso esperar

As ondas congeladas encontram os pavimentos do oceano
Você estará no litoral
Não posso esperar pra vê-lo, então
Dez mil milhas de distância
Um oceano congelado une nossos corações
Não posso esperar para vê-lo quando

Do outro lado com Gabi - Parte 1

16 de set de 2010


   Caio está fazendo dezesseis anos. Mas não se deu o trabalho de lembrar. Desde o dia que sua família morreu naquele acidente, os dias, para ele, simplesmente passam como se um fosse a repetição do outro, como um ciclo inevitável e sem fim.
   Ele acaba de chegar em casa e sem hesitar vai direto para sala logo a direita no topo das escadas, como se não houvesse ali, outro caminho. Aquele cômodo tornou-se agora, seu lar.
   Ele olha aquelas paredes pálidas e quase se sente sendo engolido por elas. Observa então, os detalhes daquele lugar que por tantos anos o fez feliz, e que agora era o motivo de sua maior tristeza.
   Havia oito cadeiras organizadamente dispostas – quase formando um círculo -, uma mesa alta de centro com aquela cor de marrom que ele amava quando lustrada, um suporte para flores com dois lugares vazios...
   Teve então, lembranças vivas de uma tarde que passou ali: seu pai, sua mãe e sua irmã, estavam todos de volta e esta doce recordação perdurou até quando sua mãe pediu para que ele fosse até o espelho pegar o jornal.
     - Filho, pegue ali o jornal para mamãe. – Disse sorrindo com aquele olhar de amor.
     E foi. Mas ao ver-se naquele espelho manchado pelo tempo todos eles sumiram outra vez, formando pelo reflexo apenas a imagem de uma mulher estranha.
  
   Virou-se abruptamente e como se o que fosse falar já estivesse gravado, disse:
   - Quem é você? O que está fazendo aqui? – Indagou enfurecido.
   - Calma moçinho. Na verdade, nem eu sei o que faço aqui, mas sinto que devo te ajudar. – Respondeu pacificamente, causando-lhe mais fúria.
   Caio volta-se para o espelho, agora com o corpo rendido por suas mãos apoiadas na bancada empoeirada. Olhando novamente seu reflexo no espelho à sua frente, mira sua boca - a essa altura trêmula de raiva e tristeza – e vê-se dizendo:
   - Você não conseguiria. Ninguém conseguiria. Há coisas que são irreversíveis. – Rebateu com um profundo desconsolo na sua voz, agora, rouca.
   Ocorre-lhe uma lágrima.
   - Por quê? Você é tão jovem. Não deve ter sido nada grave. Agora me conte. O que está te deixando assim?
   Ele, reflexivo, ergue seu corpo e vai até a cadeira à frente daquela moça, logo ao lado do espelho. Não precisou mais que três passos para isso. Senta-se nela e quase cai quando uma nova rachadura surge. Tímido por isso demora um pouco para se recompor, respira fundo e, olhando nos seus olhos, desabafa.
   - Ontem minha família morreu. E eu não sei o que representa uma família para você, mas isso é, sim, algo grave para mim.
    

   Ela assentiu sem graça em perceber que tratou com menosprezo a situação difícil do menino. Logo em seguida acena com uma das mãos fazendo movimentos giratórios pedindo para que ele prossiga.
   - Não tenho muito o que falar. Só lembro que estávamos nós quatro naquele trem...
   Sua voz se perdeu como se alguém a tivesse cortado. Um pensamento lhe havia causado pânico.
   Seus olhos se arregalaram e ficaram perdidos naquela atmosfera espessa que se formou.
   Sua respiração ficou difícil. Tentou respirar pela boca. De nada adiantou. Parecia engolir pedras.
   Caio cai em si.
   Ele que sempre acreditou não estar naquele local do qual acabara de descrever, fica intrigado em como conseguiu ver-se ali.
   A cena ia se construindo em sua mente e na medida em que as imagens se formavam, o choro e os gritos de desespero consumiam-lhe.
   Levanta-se da cadeira e, ao mesmo tempo enquanto pensa no acidente, observa mais uma vez aquela sala. Vê, somente agora, o estado dos móveis que estão ali... Camadas grossas de poeira, teias de aranha por todos os lados, madeira deteriorada e comida por cupins.
   Por fim, e sem saber, se olha mais uma e última vez no espelho, quando a cena final se compõe:

       
   “Estava feliz. Meu pai encontrava-se logo a minha frente com minha mãe ao seu lado. Ela acariciava sua perna direita – detalhe que eu costumava observar e admirar como um ato de afeto o qual eu esperava que Amy – a garota que amo, fizesse comigo um dia.
     Minha irmã estava dormindo com a cabeça apoiada em meu ombro.
     E bastaram apenas alguns segundos para que aquele grande clarão viesse em minha direção e uma leveza me incorporasse...”

   Permaneceu em silêncio por um instante tentando assimilar o que acabara de ver. Depois não teve dúvidas...
   - Eu também estou morto! – Grita ele. – Eu também estou morto!
  A mulher vê, então, que não pode ajudá-lo, como sugeriu mais cedo o menino. E para não precisar mais ficar ali, presenciando aquela cena desagradável, sai da sala.

(Continua)


* Feito por Matt Souza


Leia a parte 2!

Do outro lado com Gabi - Prólogo

9 de set de 2010
   Era uma tarde quente de verão. A jornalista e apresentadora Marília Gabriela pensava nos tópicos da palestra que faria mais tarde, intitulada “A ética do entrevistador”, no auditório da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. 

   Faltavam ainda algumas horas antes da palestra, e ela se encontrava bebericando um suco de laranja com hortelã em um restaurante na Rua 25 de Março. Ela havia pedido um sanduíche de atum, que segundo o cardápio, havia sido pescado diretamente das águas do rio Paraguaçu. Somente quando o sanduíche chegou que ela percebeu o quanto estava faminta. Comeu toda a refeição em apenas três gulosas mordidas, e se deu conta, envergonhada, de que seu ato havia sido muito pouco educado. Olhou de esguelha para os lados, levantou-se e caminhou a passos largos para o toalete. 

   Dentro do toalete abriu sua bolsa Chanel e sacou de lá um fio dental. Enquanto limpava seus dentes, se olhou no espelho e sua visão se embaçou por alguns segundos, sentiu-se um pouco tonta e se segurou no lavabo para não cair. Respirou fundo e colocou a mão no estômago. ‘Deve ser o calor’, falou para sua imagem no espelho. Depois de se recompor, passar um perfume e retocar a maquiagem, ela se retira do toalete e se dirige para a saída do restaurante. Saindo do restaurante ela vira à sua direita, e se depara com um casarão de aspecto colonial. A construção tinha portas enormes e retangulares, e no segundo andar haviam sacadas protegidas por grades bem trabalhadas. Curiosa como todo bom jornalista, Marília Gabriela entra decididamente no casarão.

   - Boa tarde, dona! – lhe diz um porteiro muito velho e pessimamente vestido, que se encontrava sentado atrás do parecia ser uma mesa muito antiga e pesada.
   - Boa tarde! Gostaria de saber o que vem a ser essa casa.
   - Esse casarão era a antiga residência de um senhor de engenho, e hoje abriga o Museu Regional de Cachoeira – respondeu o senhor com a voz baixa e cansada.
   - Hum... interessante! – diz a jornalista
   - Dois reais para conhecer tudo, madame. Vamos?
   - Sim. Mas prefiro ir só. Deixo uma quantia aqui e o senhor finge que não me viu subir – disse Marília Gabriela puxando uma nota de vinte reais e lançando-a sobre a mesa.
   - Estamos entendidos? – falou ela com aquele tom de quem sabe como conduzir uma conversa.

   O humilde porteiro assentiu e a deixou subir a escada de entrada. A entrevistadora parou e contou mentalmente o número de degraus que compunha a resistente escada de madeira. Subindo o primeiro lance, ela sente sua cabeça pender para um lado. Seus olhos giraram e ela sente que um desmaio é eminente, mas logo recobra a consciência e olha para trás, esperando ver o porteiro zombando dessa sua terrível gafe. Espantou-se ao notar que a mesa onde o velho se encontrava estava vazia, e respira aliviada por, de novo, ninguém ter notado um de seus momentos de fraqueza.

   Marília Gabriela começa de repente a sentir seu corpo vibrar. Suas mãos tremem involuntariamente. Seu corpo sua frio e ela sente um arrepio anormal subindo e se instalando em cada parte do seu ser. Um silêncio profundo ecoava por todo o ambiente. Seu rosto estava pálido, e todos seus sentidos estavam alterados, como se agora ela pudesse ver, ouvir e sentir tudo o que lhe era antes vetado por sua mente consciente. O engraçado era que apesar de todos esses sintomas, ela se sentia maravilhosamente bem. E, tomada por uma coragem nunca antes sentida, ela sobe o segundo e último lance de escadas e adentra o casarão.  

(Continua)

Uma tarde no museu

3 de set de 2010
 
 Uma das aulas que estou mais me identificando no curso de cinema é a de dramaturgia, não só pelo fato de que gosto muito de escrever, mas também pelo fato de estar em contato com textos, idéias, com a história da dramaturgia que é interessantíssima, com meu professor que é muito legal  e com novos aprendizados .  Sempre gostei muitos de dramas, peças, teatros e estar estudando isso é muito bom, assim posso aprofundar  e muito meus conhecimentos.As aulas estão sendo muito teóricas, algumas bem chatinhas, afinal nem tudo é perfeito, mas no decorrer do curso irão ter muitos trabalhos legais e na semana passada fiz um deles. O professor  pediu para que eu e o restante do meu grupo fôssemos ao museu regional aqui de Cachoeira e a partir dele criar uma história criativa  com base nos cômodos, e nos lugares que o compõe.

   Pareceu uma tarefa nada difícil, afinal todos os meus colegas gostam também de escrever e isso no final das contas foi muito bom para a equipe. Só não sabíamos que tínhamos tanta idéias fazendo com que a história terminasse com mais de vinte páginas. Tivemos muitas idéias, drama, suspense, comédia, espíritos, vidas passadas.. Marília Gabriela!  Voces irão entender mais tarde rsrs.

  O museu foi no passado uma casa de engenho. Dão Pedro residiu nela por muito anos e até hoje os moveis da casa são preservados, o que dá a graça dele. Lá encontram-se moveis muito antigos de uma madeira muito boa e que é caríssima hoje em dia que é a de Jacarandá. Móveis que são difíceis de achar, muitos antigos. Os quartos da casa são imensos, a cozinha, a sala, enfim tudo muito rústico e antigo. Detalhe para o quarto de Dão Pedro que tinha dentro dele outro pequeno quartinho, onde ficavam presas as mulheres que o traiam. Horrível  não é? No museu também tem mesas grandes, portas gigantescas daquela época e sofás diferentes. Algumas móveis possuem entradas secretas, onde eram escondidas coisas valiosas, armários que possuíam várias gavetas, mas apenas três delas abriam, para dificultar o trabalho de ladrões que por ventura quisessem roubar algo.

Pudemos ver no museu também uma varanda que dá pra uma paisagem muito bonita, cheia de casas antigas e de árvores. Nessa varanda possui uma escada antiga que chega  no andar de baixo da casa.. Nesse andar era onde ficavam escravos que trabalhavam na casa. Também existiu uma espécie de arena, onde aconteciam peças de teatro, porém hoje há apenas as ruínas da arquibancada.

A partir desses cômodos (sala, quartos, cozinhas, varanda) teríamos que criar a história.Pois bem, depois da visita eu, minha colega Iasmin e meus colegas Matheus e Guilherme nos reunimos e criamos a história que está divertidíssima. A protagonista é ninguém mais ninguém menos que Marília Gabriela, sim a jornalista e atriz  que faz de vez em quando algumas novelas na rede Globo.  Tivemos muitas idéias, fizemos várias histórias diferentes mas unimos tudo colocando a Marília no meio. A idéia de colocá-lá  foi do Guilherme e todos gostaram, no fim das contas ficou uma história divertida e ao mesmo tempo profunda. Como ficou muito grande não vou postar de uma vez só, se não ficará muito cansativo pra ler, então aos poucos vou postando aqui as partes. Aguardem! Em breve “ Do outro lado com Gabi”!
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